08 outubro 2012

E assim, espero.


                                                                                                                   Foto: Mariana Andrade.

Eram as mesmas gotas de chuva que caíam naquelas velhas telhas de barro. Vento frio, sem aconchego. Ainda vestia aquele blusão velho que pertencia a você. Ficava vendo de longe o tempo passar, como em outrora. Lembrava-me do abraço que havia sido entregue naquele beijo que partiu. Lembrava-me daqueles corpos unidos em um único desejo de substituir seu próprio vazio, contando horas passadas e brincando com o relógio antigo que havia sido esquecido no mesmo lugar. O tempo divagava em seu próprio tempo, rasgando a saudade com seus ponteiros velhos, sem nenhum significado. Eram dias que passavam e, sozinha, sempre me lembrava das últimas palavras que foram levadas pelos faróis acesos daquela noite que nunca se apagou.
Vento vinha. Vinha tanto vento que meus cabelos brincavam, divertiam-se e tentavam fugir de tamanha tristeza. Era um coração que palpitava a cada ranger de porta, a cada passo de um desconhecido que sempre se parecia com você. Era um tempo antigo que ainda se recheava com os mesmos planos, com os mesmos desejos sem um adeus. Era uma alma apagada por uma borracha invisível, fria, com consistência de dor. Era uma borracha feita de você, que só soube dizer adeus, sem amor, sem nada.
Já te disse como o céu fica laranja quando chora? Já te disse como o vento esfria e a velha cama de madeira engrandece? Ao dizer que não me amava mais eu entendo que você nunca me amou.
Agora é tarde. O velho futuro de nós dois já está apertado em meu peito, como um nó que não se solta. Agora tudo se transformou em saudade e eu não entendo como você conseguiu ser tão cruel a ponto de partir sem nem me ajudar a enxugar essas gotas que insistem em molhar as telhas dessa mesma casa vazia. Agora é fim, é ponto, é adeus, desilusão, é você. E é o mesmo blusão, o mesmo você que, depois de partir e despedaçar minha vida em pequenos pedaços, ainda é quem me engrandece e me faz acreditar que os mesmos faróis ainda entrarão na antiga garagem e deitarão na cama vazia que ainda guarda amor de nós dois.




9 Comentários:

Nina disse...

Então, mesmo que o outro afirme categoricamente que já não me ama mais, devo ceder a uma esperança?
Não, tenho muito amor-próprio.
Abraços.

Bandys disse...

Ola Camila,

Belo conto triste, mais as vezes a vida é assim. Penso que quem ama não abandona.
O vídeo é lindo, amei.

Beijos

Mariana Andrade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariana Andrade disse...

Lindo conto, lindo... É incrível como a tristeza dos sentimentos descritos nos envolve e a leveza das suas palavras permanece... Entre o peso e a leveza. Lembrei do Milan Kundera... A cada visita que faço o seu blog está ainda mais bonito. Como é bom poder ler seus textos... É o melhor jeito de enganar as saudades e a distância.

Carlos disse...

no fim, o que fica são os velhos futuros. e vamos acumulando isso e virando quase lojas de velharias.

End Fernandes disse...

Como assim vc diz que ele não te ama e espera por ele? =]
Brincadeira... hehe
Um beijo Camila!
End Fernandes

Garoto Lunático disse...

Adorei. Lindo, um conto triste e o vídeo final. Noss, gracioso.

Rick disse...

Doce, porém triste e meigo.
Mas essa coisa de saudade é assim, as pessoas se vão, mais os momentos que foram bom fica, por bastante tempo, guardado com a gente.

Bjws moça, até breve"

Bandys disse...

Passei pra ver se tinha novidades.

Beijos

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