06 maio 2012
Era um certo vazio.
Uma xícara vazia é como um coração que palpita saudades.
O medo transpirava, saia em formato de chuva, inundando qualquer ilusão que ainda pudesse tentar resistir.
Sofia, sentada. Sozinha, Sofia. Estava mais uma vez sozinha. Sofia esperava, deixava a janela aberta. A cama parecia vazia, ou seria ela oca? Um corpo oco conseguiria chorar?
Sofia não conseguia entender como de repente tudo ficava confuso. Dias confusos e horas confusas. Era um vento estranho que trazia calor. Era uma tempestade invisível. Será que as pessoas enxergavam aquela tormenta?
Sofia se calava. Era difícil respirar. Haviam roubado o ar de dentro de seus pulmões. Roubaram vida, mas Sofia deixava. Ela percebeu que ainda podia suspirar e o pouco ar era suficiente para que ela pudesse andar. Devagar. Divagando, como se tudo ao seu redor fosse música. Ela escutava poucos, olhava muitos, cuidava. Sofia escutava o sol. Ela havia se cansado de enxergar, por isso o som havia se tornado mais atraente. Ela descobriu como a música conseguia levá-la para um futuro tão próximo, distante. Sofia, vazia. A linha tênue da sua existência havia sido distorcida por novas imagens. Vazia, Sofia. Você já tentou se encher de ar? Ar preenche vazio, menina. Melhor, ar te faz flutuar. Que tal flutuar? Sofia tinha vontade de encontrar uma estrela. Aquela estrela da infância que ficava no canto direito do céu. Ah, o céu! Como consegue carregar tanta beleza? Como consegue? Sofia queria aquela beleza. Ela não queria mais aquele vazio sem sentimento, seco.
Uma xícara se esquenta quando o seu vazio é preenchido com um líquido quente. Por isso, Sofia havia bebido água. Mas não adiantava. O vazio fica. A angústia te impede de lutar. Sofia conseguia enxergar essas correntes. Toca. Afaga. Ela não tinha medo daquela prisão. Sabia que para entender algo, era preciso estar disposto a amar, mesmo que nunca saibamos que poderíamos sentir afeto por algo tão ínfimo, às vezes cruel.
Sofia havia aprendido. Ela já havia encontrado o caos, já havia procurado o caos, já havia fugido do caos. E para quem tem olhos, o caos não é um lugar agradável. Ou não?
Quem disse que a tristeza é triste, afinal? Quem disse que o feio é feio? O que seria o bonito? Seria Sofia bonita? Sofia não sabia distinguir, ela sentia. Ela observava tudo de longe e depois decidia se aproximar. Que loucura, menina! Viva mais! Saia mais! Mas dentro dos seus olhos, Sofia sabia que não havia solidão. Por baixo do vazio ela conseguia escutar vozes. Sofia sorriu. Ela sabia que não estava sozinha. Quem tem um mundo dentro de si, nunca estará sozinho. Sofia havia se confortado. Ela sabia que encontraria uma saída. Ela sabia. Esse mundo louco faz loucuras com a cabeça de quem consegue enxergar. Ela sabia. Por isso ela precisava ser forte ou então aprender a viver com os olhos fechados.
Será difícil viver quando, mesmo com os olhos fechados, você consegue enxergar?
Sofia recebeu um abraço. De repente seu corpo se encheu. Um pequeno movimento nos seus lábios chamou sua atenção. Ela sorriu. Ela gargalhou e, como mágica, seu vazio começou a se encher de lembranças. Era a cura. A felicidade. O amor.
Tudo tão perto. Ela sabia. Tão fácil, tão pequeno, tão grande.
Abre os olhos, Sofia. O mundo é difícil, porém, teus olhos te colocam em um labirinto inexistente. Não é sua culpa. A vida é assim. Respira, desse jeito fica mais fácil de caminhar.
08 fevereiro 2012
Rotina.
Os olhos sempre denunciam o nascer do sol, Mathias sabia. Era por isso que, ao acordar, ele mantinha seus olhos fechados, abrindo-os aos poucos para que assim pudesse se acostumar com a ideia de um novo amanhecer.
Já era tarde, ele precisava se levantar. Os raios do sol ardiam seus olhos. Corpo frio, noite mal dormida, fome esquecida. O despertador já havia acordado seu corpo, porém, sua alma ainda precisava despertar. Ele olhou para o computador, percebeu que não havia desligado. Poderia ser uma desculpa para escutar uma música antes de começar a rotina? Mathias sorriu ao conectar as caixas de som. Beethoven. Oh, Beethoven. Sua mãe gritou. Estava alto. Abaixe, Mathias! Se vista, Mathias! Estude, Mathias!
Então Mathias abaixou. Mathias se arrumou. Mathias estudou.
O dia passou, Mathias. Você gosta de ver o pôr do sol? Então, veja de fora. Enxergue a rua se calando, os carros voltando, gastando seus ruídos, seus gritos. Os passarinhos cantam novas despedidas. Amores se despedem, Mathias. Irmãos vão para casa. Perceba como o sol, aos poucos, consegue se movimentar até beijar o horizonte da terra. Ele poderia estar cansado? Veja como ele cresce quando a terra o recebe em seus braços. São dois seres, Mathias. Poderiam ser reais?
Mathias não havia conhecido o amor. Olhava de longe. Procurava um olhar que se encontrasse com o seu. Procurava lábios que encontrassem sua boca, que abraçassem seu corpo e pudesse amá-lo pelo simples fato de existir. Mathias encontrava paixões em pensamentos. Mathias buscava novas promessas, idealizava novos projetos, sonhava em ser um super-herói. Mas super-heróis são humanos, Mathias. Super-heróis precisam viver em terra firme. Super-heróis sentem, sofrem, buscam novas inquietações.
Mathias estava cansado. Suas botas estavam sujas. Ele precisaria tirá-las, um dia. Não hoje, não agora. Mathias recebeu um telefonema. Voz doce. Como aquela voz havia aparecido? Ele não sabia que poderia se apaixonar. Sorriu.
Estava tarde. Biblioteca fechou, Mathias precisava voltar. O caminho de volta estava cheio de buracos, mas Mathias sorria. Os buracos não significavam nada, ele só conseguia se lembrar daquela voz, daquelas palavras. Mathias parou, deixando a brisa dançar sobre os seus cabelos. A sua mochila estava cheia de livros, mas parecia leve. Mathias achava que poderia voar. Será que ele seria um super-herói? O vento cantava novas melodias em seu ouvido e, de repente, todos os ruídos se transformaram em uma leve melodia. Buzinas, gritos, sussurros, saudades. Tudo se fundiu em busca do efêmero, e Mathias sentiu. Mathias podia sentir. Mathias sentia.
Já era noite e, pela primeira vez, Mathias sentia saudades. Mathias sentia seu corpo, se olhava no espelho. Gostava. Mathias gostava. Mathias sentia fome. Mathias sentia o beijo, o abraço, a despedida. Sabia que já era o momento de seguir. E ele gostava de seguir. A vida agora estava cheia de cores e, tudo estava cheio de melodias. Tudo transcrevia Beethoven, Mozart. Tudo era, de repente, o que ele sempre quis ser.
Mathias sorriu. Guardou a mochila. Tomou banho. Comeu. Beijou sua família. Agradeceu.
Mathias sorriu. Guardou suas lembranças. Guardou seus sonhos. Lavou suas dores. Reergueu um amor.
Sorrisos. Pela primeira vez, Mathias dormiu. Fim da rotina. Começaria de novo, ele sabia. Mas cada dia guardaria uma nova essência e, mesmo quando o dia fosse cansativo, ele saberia que encontraria novas surpresas.
Olhos enxergam o que querem enxergar. Só um novo olhar pode mudar percepções antigas. Acredite.
A vida é o que você faz dela. Se ficar fria, use um cobertor. Nada é tão difícil quanto parece ser. Se o chão fosse de algodão, ainda assim seria complicado de caminhar. Transformar as pedras em flores é uma solução. Encará-las, é outra.
12 janeiro 2012

A menina tinha medo do escuro, por isso ela aprendeu a viver com os olhos abertos. Menina que tem medo de escuro não fecha os olhos, ela sabia. Olhos de medo doem, precisam de uma claridade cega para conseguir enxergar a vida, tentando ao máximo transformar sua dor em um refúgio de força.
A menina olhava ao seu redor. Medo. Angústia. Ela sabia que com aquele fardo seria impossível andar. Ela precisava acreditar na possibilidade de encontrar um refúgio dentro da sua culpa em tentar ser diferente. Ela sabia que poderia mudar, mas sentia medo de encarar um destino tão incerto que já estava batendo em sua porta.
A escuridão é tua amiga, menina. Mostre teu rosto às estrelas, elas podem curar teu coração. Não tenha medo de tentar ser o que você sempre foi ou de encontrar sua verdadeira razão de viver. O amor vai estar em volta das tuas escolhas, você só precisa recolher tua alma para um lugar distante, um lugar que implore pelo teu grito, por tuas lágrimas.
A menina de olhos negros carregava sua própria escuridão. Seus olhos já demarcavam seus medos, já deixavam claro que seu espelho precisaria ser limpo para que ela pudesse reencontrar algumas verdades repartidas, esquecidas.
Menina, seus olhos são teus melhores companheiros.
Menina gosta de olhar fundo, de analisar a vida, de sorrir. Menina gosta de sentir a incerteza que uma brisa de fim de tarde carrega. Menina gosta de carinho, de abraços, de corações feridos. Menina quer gritar, jogar sua voz fora, arrancar suas vísceras até não restar nenhum resquício de saudade e de lembranças.
Aqueles olhos negros não conseguiam entender o motivo daquilo tudo. Os olhos negros precisavam entender algumas razões, precisavam perdoar. Olhos negros precisam perdoar seu próprio olhar por não estar conseguindo ver a beleza daquele velho pôr do sol. Perdoar por ter perdido tanto tempo sentindo, sem enxergar o mundo que andava ao seu redor.
Amigos partiram, menina. Amores foram embora. Você não pode controlar tudo, infelizmente. Muitas vezes encarar a escuridão é a melhor forma de conhecer o desconhecido. E se você ainda não encontrou as razões, existe uma possibilidade de serem encontradas dentro de tuas próprias escolhas, de tua alma, de tua mente.
Não destrua a si mesma por medo. Não faça isso. Menina precisa sorrir novamente. Precisa respirar, abraçar, reencontrar um verdadeiro amor. Menina não pode ficar presa ao passado, esperando que seu futuro se torne uma nova mágoa, presente em um futuro que se transformará em resquícios de um novo passado.
Respira, menina. Deixe tuas lágrimas limparem seu corpo. As lágrimas querem dançar em tua face, limpar tua pele, tuas feridas. Liberte tua voz, menina. Liberte tua voz. As paredes da tua casa já se cansaram do mesmo grito calado, das mesmas risadas, da mesma rotina.
Inove. Cresça. Mude.
Um anjo pequeno ainda está olhando por você. Anjo de olhos verdes, que combinam com a tua essência e encontrou em você resquícios de outras vidas, de outras dimensões. O anjo vai cuidar de você. Está aqui, estou aqui. Pouco perto, longe. Mas corações iguais se encontram mesmo sem palavras, eles sentem a presença somente pelo fato de existir. Eles existem.
Menina, me deixe enxergar seu sorriso. E quando estiver tarde, pode acender as luzes. A noite é tua amiga, ela vai entender que pesadelos na verdade são sonhos disfarçados. Não se esqueça.
Quando ventos frios batem, devemos proteger nosso corpo. O frio dói, menina. Não precisa ter medo de sentir. Um abraço ainda é o melhor remédio. E se por acaso você sentir medo, feche os olhos. Anjos não precisam de muita coisa para estar perto. Basta sentir, e só.
Sinto saudades.
Minha pequena Andrade, Mariana.
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